Luiz Monforte
BIENAL DA MONGÓLIA
Texto encomendado pelo Jornal a Tribuna de Santos
Ao bom entendedor, meia ironia (ou piada) basta. “Bienal
da Mongólia”, faz parte de um conjunto de respostas dos visitantes
da Bienal Nacional de Artes Plásticas ao trabalho Mapa Homminis, de autoria
de Lourdes. a obra consiste na apresentação de um grande mapa
do mundo, onde os visitantes devem responder às perguntas: “Quis
est? Unde venis?”.
Onde o mapa indica a situação geográfica da Mongólia,
um visitante escreveu “Bienal da”, e circulou a expressão,
envolvendo o nome daquela região. Este é um dos 1.300 trabalhos
expostos, e provoca um aglomerado de pessoas curiosas e incansáveis na
procura de novas ironias (ou piadas) – há outras.
A idéia da artista não só provoca risos, como também
leva o espectador à reflexão. Particularmente, a pergunta que
mais incomoda e acaba com os risos é: Se os Cr$ 600.000,00, que estão
sendo gastos no empreendimento fossem endereçados às instituições
que trabalham com os menos dotados, para que organizassem uma exposição,
qual seria o nível da mostra?
Quem conhece os trabalhos da psiquiatra Nise da Silveira e seus Museu do Inconsciente,
das APAEs (Associação de Pais e Amigos do Excepcional) e mesmo
os da nossa SETA (Serviço de Estudos de Trabalhos Artesanais), certamente
tem a resposta adequada. Quem não os conhece, que procure conhece-lo
e depois visite a Bienal Nacional de Artes Plásticas, ou vice-versa.
POR FORA, BELA VIOLA
A musicalidade da composição formada pelos reflexos da porta de
vidro, que dá acesso ao prédio confundindo e aumentando o número
de visitantes, que aguardam sua abertura, com os funcionários que estão
no interior do edifício, é evidente. Como plano superior desta
composição constata-se que São Paulo ainda tem áreas
verdes. Sem dúvida, uma obra natural merecedora de um grande prêmio
em mostras do tipo Bienal.
Esta harmonia só é interrompida, quando se toma conhecimento de
uma estrutura metálica que serve de suporte a uma placa onde se lê:
“Bienal Nacional de Artes Plásticas – Congresso Brasileiro
de Arquitetos – Exposição de equipamentos e materiais para
construção e serviços urbanos – de 25 a 31 de outubro
de 1976 – promoção do Instituto dos Arquitetos do Brasil
– realização por Pini Congressos – projeto e montagem:
Arquiprom”.
Se as placas (há outra no interior do prédio) não estiverem
mais lá, é porque alguém, consciente das confusões
que aquele anúncio provoca, retirou-as. A Bienal Nacional de Artes Plásticas
está no 2º andar do prédio da Bienal, no Parque Ibirapuera,
aberta até o dia 30 de novembro, de terça a domingo, das 15 às
22 horas, e para visita-la paga-se um preço de acordo com o status ou
idade dos espectador: crianças até 10 anos de idade têm
acesso livre ingresso; estudantes e crianças com idade entre 10 e 15
anos, pagam Cr$ 3,00 e adultos pagam Cr$ 5,00.
POR DENTRO, GARGALHADAS
O pão bolorento está na obra Interferências, de Guardiã
e Dantas Jr., digna de análise atenciosa, porém uma idéia
a ser lapidada.
A maior gargalhada não existe mais, pois um grupo de jovens que se apresentou
como “coordenadores do congresso” apressou-se tão logo o
alarma soou – em retirar um cartaz colocado à entrada, onde uma
agência de turismo anunciava: “Reservas – Hotéis –
Excursões”. Outros alertas foram dados, com relação
a uma oferta realmente tentadora: quatro projetores de slides, duas caixas acústicas,
um amplificador e caixas pequenas com estampas de marcas famosas, de origem
oriental, que estavam (esperamos estar empregando o verbo no tempo certo) ao
acesso de qualquer um, numa sala que, imagina-se, seja para audiovisuais.
Sabe-se agora que o artista Joaquim Arino Duran procura dois de seus quadros,
misteriosamente desaparecidos da exposição.
O que é de estranhar é o número de policiais e vigias da
própria Bienal, à disposição daquele único
andar, e que assistem inertes ao tato mais curioso interferir numa obra que
em hipótese alguma pede a colaboração do espectador.
Ainda com toda esta confusão a Bienal consegue oferecer um pouco de humor,
e se houver um prêmio para essa categoria, a taça será levantada
pelos títulos que Reinaldo Eckenberger deu ao seu conjunto de bonecos
de pano; dois deles: Havaiana autêntica e falsa franciscana, na procissão
do sincretismo bonecoídeo e Srta. Sociliana Turnera, cursando a última
aula de nubente perfeita.
Elgul Samad também estará na premiação dos espirituosos
e hilariantes; ele ensina à dona-de-casa que, para pendurar lençóis
no varal, é necessário um profundo conhecimento de desenho técnico
e alguns ventiladores, transformando o que poderia ser um conceitual poético
numa catástrofe.
OS PREMIADOS
Ainda não se sabe quem receberá os prêmios, porém
se o julgamento levar em conta idéia, conteúdo, função
e tratamento, sem qualquer ironia, os premiados serão: Subjetivo e Objetivo,
de Augusto; Natureza morta, de Eduardo Albarello Filho e José Antônio
Firmino; Interferências, de Guardiã e Dantas Jr. e Mapa Homiminis,
de Lurdes.
Ao artesão Bachier, pelo seu jogo de xadrez, e às aplicadas, belas
e repetitivas obras de Odita Mestriner e Maria Tomaseli Cirne Lima, confira
se menção honrosa.
É tempo de colocar os pés no chão e encarar a Bienal como
um veículo de comunicação visual intencional, o que implica
clareza e objetividade na transmissão de mensagens. Os meios empregados
para produzi-las não interessam, o importante é a somatória
destes meios como produto compreensível.
É tempo de doar os olhos também, pois os cegos demoram muito tempo
para recebe-los e, enquanto isso, desenvolvem, numa porcentagem bem maior do
que os que vêem, o que chamamos de sensibilidade; mais tarde então,
quando de posse de aparelhos visuais, aceitam mais facilmente que os conceitos
de estética são em número relativo ao dos habitantes da
terra, e constatar que as idéias do nosso tempo é que estão
parcas, padronizadas e envelhecidas, ou talvez escondidas.