Luiz Monforte
STARDUST MEMORIES
Texto encomendado pela Calcografia Nacional de Espanha / Real Academia de Artes são Fernando, Madri
GARCÍA LORCA, CARLES
SANTOS, NURIA ESPERT, ALMODOVAR, TAPIÉS, MARISCAL, ELS JOGLARS, VELASQUEZ,
GOYA, PICASSO, GAUDI, CUENCA, VALENCIA, BARCELONA, SEVILHA, MADRID...
Sonhar é saber articular lembranças,
um perfume, um sabor, sabor como em sapiens: somos seres gravados por qualidades
de sensações.
Nestes tempos de espetáculo(c)idades, pautados pela saturação
de todos os valores, pela erotização exacerbada das metrópolis
e seus habitantes, pelo topor das drogas, excessiva candura do açúcar,
disputas infundadas, exagerado culto ao “virtuosismo” do paradigma
“number one”, e outros estímulos aberrantes, me interessa
a estratégia de ação das vacinas: antidoto de si mesmas...
O espetáculo contra si mesmo a bem de sua própria sobrevivência.
ONDE ESTÁVAMOS
“Nosso mundo”, segundo Elizabeth Le Compte, fundadora e diretora
do Wooster Group, grupo de teatro experimental, “está cheio de
conversas unilaterais, cujos protagonistas estão em conexão com
a ajuda dos meios eletro-eltrônicos (o corte no cinema como o outro, implícito
na conversa telefônica).
(...) Atualmente, é raro que estejamos no mesmo lugar com a mesma pessoa
com quem estamos falando.
O novo naturalismo é eletrônico e fílmico.
Um diálogo pode se desenvolver entre duas pessoas que, graças
às possibilidades da montagem, não estejam obrigatoriamente no
mesmo enquadramento.
O sentido é comunicado através de associações: você
vê alguém e, então, no plano seguinte, vê a reação
do interlocutor ou você vê aquilo que uma outra pessoa está
vendo.
Nós aprendemos a extrair uma lógica de tais conexões fragmentadas:
tudo isto é mais realista do que o antigo estilo teatral.
Eu também gosto da ambiguidade, de não saber sempre o que está
acontecendo: quem recebe a informação e porquê. Isso é
consequência destas imagens mediatizadas, eletrônicas: assistimos
a televisão enquanto lavamos os pratos ou falamos ao telefone com alguém.
Esses níveis sobrepostos estão incorporados na vida das pessoas.
Esse tipo de simultaneidade me agrada. Ela oferece grandes possibilidades de
obter uma estrutura mais vasta, não linear.
"(...) Eu amo a televisão, as imagens eletrônicas, os close-ups.
Gosto da intimidade que a TV e o cinema nos oferecem e que o teatro consegue.
Amo a possibilidade de modificar radicalmente a cena em um segundo. Quando incluo
um elemento visual na TV, isto modifica o sentimento de todo mundo diante do
que se passa no palco, como a música no cinema.”
(Le Compte, Elizabeth, in catálogo da apresentação de A
Tentação de Santo Antonio”, espetáculo teatral que
dirigiu e que foi encenado pelo Wooster Group, inspirado em tela homônima
de Jeronimus Bosch.
ONDE ESTAMOS
Estas anotações são feitas no segundo tempo da Era da Luz.
Sua aparente desordem se articula, quando entendida como proposição
de montagem, pálido reflexo da multidifusa gama de associações
de que somos capazes. Estratégia comunicativa que parece ser o fundamento
de essência das artes gráficas, a montagem é um dentre os
sofisticados modos por meio dos quais engedramos idéias, isto é,
por meio dos quais nos arquitetamos em complexo edifício.
Para o propósito desta apresentação focalizarei uma modesta
parcela desta “construção”: o estatuto do jogo, tomando
como ponto de partida algumas congruências de proveniência verbal,
na tentativa de chegar aos territórios que nos distanciam da “Terra
do Meio”.
Think of the pearl
the oyster has made
a grain of sand once inside
pain keeps no secret
patience weeps a jewel
(Mark Foster)
A cumplicidade periférica que pode existir entre os diversos termos das
diversas línguas é proporcional à complexidade da trama
de todos os sistemas de linguagem. De modo mais específico e simplificado,
estou me referindo a alguns termos os quais, em diversas línguas, se
apresentam camuflados por uma homofonia ou homografia que podem induzir a uma
idéia confusa em relação à sua significância.
E isto nos possibilita aferir, em pequena escala, o nível de sofisticação
que, ao longo dos tempos, agregamos a às linguagens. Microvisão
delatora do legado das artes gráficas desde os tempos de nossos primeiros
riscos.
Assim, os termos de origem latina GRAVAR e GRAVADOR, podem ser utilizados e
entendidos com o mesmo significado e sentido nas línguas portuguesa e
espanhola, reciprocidade nem sempre válida para línguas de mesma
radical ou não. Curiosamente, também no âmbito das duas
línguas há modos figurativos que conduzem estes mesmos termos
a outros sentidos e significados, como é o caso do termo GRAVAR aplicado
com o sentido de MEMORIZAR, ou como também é o caso da palavra
GRAVADOR, quando aplicada como nome do aparelho elétrico que grava sons,
aparelho que pelo inglês, recebe o nome de RECORDER, palavra de origem
latina, derivada do termo RECORDAR, que por seu turno, suscita as ações
de MEMORIZAR, LEMBRAR.
Este jogo de permutas verbais, nos vai fornecendo vestígios, que, como
pistas de um crime, nos possibilitam certo entendimento em torno da origem ideológica
da ação do gravar. E, ao relacionarmos esta gama de índices
a cada um dos processos de imprimir existentes, então, podemos afirmar,
com certa grau de assertividade que aquele propósito era o de fazer circular
a informação e, este propósito, pode ser tomado como ação
ideológica. E aqui já estamos falando em estratégias de
difusão da matéria impressa.
Sinestesia: "visão" auditiva...
Ouvir. Gravar. Memorizar.
Ouvir o texto da gravura
Ler a gravura pelo texto figurado
Rever. Recordar. Record. Reproduzir. Monumento...
A sonoridade como instrumento de qualificação de um espaço.
A sonoridade como discurso no espaço
A sonoridade como ideologia para o espaço
Xilogravura: acidente geographitado
Cosmicidade: pó, informação quase translúcida qualificando
a superfície do metal.
O breu é resíduo de lágrima.
“A Educação pela Pedra”: Litografia
Cela e trama: Serigrafia
Fotografia: retorno ä caverna, casa, câmera...
O termo ideologia não fica à margem da coreografia de sentidos
e significados que pode existir entre línguas e sistemas linguagens.
Por ideologia entendemos: um discurso expressivo de um conjunto de crenças
que fundam um sistema, isto é, lhes sustentam.
Durante um longo período de tempo, acreditava-se que as ideologias só
podiam ser formuladas por meio exclusivo dos sistemas de linguagem verbal. Albrecht
Durer, Francisco Goya, Theo Van Doesburg, Piet Mondrian, Roy Lichtenstein, Andy
Warhol, Marina Abramovic, Alvar Aalto, Bill Viola e tantos outros artistas de
tantos outros tempos demonstraram de modo efetivo que as ideologias também
podem ser articuladas por sistemas de linguagem e representação
visual. E aqui é bom lembrar, não estou me referindo a estilo
mas, a um tipo de articulação que se instala pelo poder do argumento
que pode gerar.
Seu entendimento, portanto, não prescinde da palavra, daí meu
particular interêsse pelas palavras, seus desenhos, seus desígneos,
suas articulações e signficações. No DESENHO das
palavras se enformam DESTINOS. E os destinos explicitam os propósitos.
OUTROS TEMPOS
O propósito do acervo pictográfico da Antiguidade era a narração.
Falava, segundo alguns de seus historiadores, (Germain Bazin, por exemplo),
de possíveis ciclos simultãneos da vida daquelas comunidades arcaicas:
preguiça, trabalho, rito, festa e embriaguês, ponto em que todas
as leis são suspensas e a transgressão ocorre.
Quando a transgressão ocorre, ocorre também a emergência
da informação nova e, com ela, os limites de nosso horizonte se
ampliam, ou, em alguns casos, dependendo da altura do vôo, se restringem.
No entanto, em ambos os casos, passamos a ter uma outra referência de
linha do horizonte, de infinito, e nossa visão e concepção
de mundo é alterada, passando a obedecer a trama estatutária de
um novo desenho, (novo destino), em que novas pautas de trabalho e novas relações
econômicas, culturais, políticas e descritivas são estabelecidas.
O aparecimento da informação nova está frequentemente atrelado
ao aparecimento de novas ferramentas, novas idéias projetadas, é
dizer: novas habilidades físicas projetadas. E essas são consequência
da embriaguês, do clímax da festa, em que novas percepções
físicas foram reveladas. Trata-se, portanto, de uma espécie de
jogo especular, (hoje, quase completamente cego), a serviço da demanda
do espírito de uma época.
Nos tempos em que a festa era celebrada com o sentido de regozijo, de reconquista
de um ciclo que conduzia ao início de um outro, o aparecimento dos primeiros
e rudimentares sistemas de escrita podem ser tomados como expressivo exemplo
de um instante em que o transe possibilitava o trânsito. Hoje, a supersonicidade
de tudo parece congelar o transe. Nem sempre foi assim. Nem sempre será
assim.
Dos rastros impressos nas areias e lamas às incisões à
laser, a delação de nossas ações nos tempos.
O acervo pictográfico da Idade Média, por seu turno, tem na descrição
sua característica mais marcante. Então, o Deus era o Estilo.
O espírito buscava salvação na arquitetura: as naves das
catedrais eram como que metáforas de naves reais e, no imaginário
dos fiéis, tinham o significado de conduzir os espíritos aos reinos
celestes. São estes os tempos que marcaram as Origens do Drama Barroco
Alemão. Rosa, rosae, rosarum, recitou o sábio: os segredos do
scriptorium...
Durante a Renascença, a linha do horizonte se amplia e os modos de representação
perspectivística podem ser tomados como metáforas tradutoras das
novas conquistas: o Novo Mundo.
Então, as naves eram reais e todos os ventos lhes eram favoráveis,
sopravam vida, configuração e fisicalidade nova em tudo. Como
um suporte xilográfico, o horizonte havia sido rasgado. O abalo provocado
pelo transe das novas conquistas é de proporções avassaladoras,
daí minha caracterização do acervo renascentista como dissertativo.
O mar era o cosmos... Adereços simbólicos, como livros, chaves,
bolsas de dinheiros, ampulhetas e ferramentas de precisão compunham os
cenários em que os nobres eram retratados. E, ao contrário da
figuração anatômica medieval, os corpos, assumem formas
torneadas, desnudas... "No Renascimento, não se manifestou qualquer
contradição antagônica entre, digamos, pintura e a gravura
(em suas diversas espécies). Grandes pintores foram também grandes
gravadores: é o caso de Durer e Goya. Mas o elemento gerador de conflito
estava ao lado e nascera junto: a imprensa e seus tipos móveis. O rápido
crescimento dos índices de alfabetização criou um mercado
em expansão para a palavra escrita que se tornou o signo informacional
hegemônico. Uma imagem, então, não valia sequer cem palavras...
O livro suscitou o jornal que suscitou a fotografia que suscitou o clichê
que suscitaram a revista que ressuscitou todas as técnicas de reprodução
e criou novas, dando início à formidável expansão
informacional icõnica, que chega até nossos dias quando as próprias
letras transformam-se em figuras." (Décio Pignatari, in "Uma
arte, todas elas", 2000)
O modelo representacional renascentista estabelece normas e “fundamentos
artísticos” que prevalecem até os dias de hoje. Não
há quem nunca tenha almejado a destreza dos mestres daquele período.
E, provavelmente é esta a procedência da idéia que impulsiona
e supervaloriza o método/técnica em detrimento da vontade discursiva
do objeto de arte, isto é: o conteúdo discursivo da imagem, aquilo
que irá, por fim, justificar a sua existência.
Ao tomar a Melancolia 1, de Dürer, como termo equivalente ao “Drama
Barroco Alemão”, Walter Benjamin jogou um pouco de luz sobre a
questão discursiva do objeto de arte. Sua atitude despertou a ira daqueles
“profissionais das artes” conformados e entretidos por questões
artísticas limítrosfes: cor e forma, por exemplo, as quais, desvinculadas
de uma estrutura relacional mais complexa, podem ser tomadas apenas como meras
qualidades visíveis.
Saxl, Panofsky e Klibansky, são outros relevantes estudiosos que debruçados
sobre Melancolia 1, fizeram emergir informações preciosas sobre
a gravura de Durer não só no que diz respeito à sua conformação
técnica como em relação à estrutura e significado
de sua configuração, demonstrando que o enigma proposto pelo artista
ainda está distante de afirmações certeiras. Sua obra “Saturno
e Melancolia” é um tratado artístico e pode ser considerada
como um valoroso documento da história médica.
O homem era Deus. O Deus era um parente próximo. Os Médici eram
a lei. O mar era o cosmos. Tempos Modernos
REVELAÇÃO 1
Durer em "Melancolia I", extrapola os limites do potencial técnico
da gravura para desvelar sua inteligência representativa: ilusão
arquitetada.
Revelação: A Melancolia 1 não trata somente de um sentimento
configurado e, tão pouco encerra a sua configuração em
seu protagonista: um homem. Afinal, estamos falando de arte renascentista. isto
é, de proporcionalidade relativa à alta fidelidade.
Neste caso, os truques da retórica, e aqui, me refiro especificamente
aos termos de origem latina, onde os gêneros de pessoas, coisas e sentimentos
são bem definidos, legaram a muitos, a idéia de que a figura do
protagonista da gravura de Durer, fora concebida como figuração
personificadora da Melancolia, termo que aponta para o gênero feminino.
Assim, pelas línguas latinas a Melancolia é um ente feminino.
E, se pode haver algum valor nestas desagregadas notas, arrisco: Melancolia
1, antes de tudo, deve ser considerada como um auto-retrato. Por meio da frequência
simbólica de seu tempo, Durer estava falando de si mesmo. E isto, numa
fração de segundo, muda todo um curso de navegação,
“como a música, no cinema”.
CONCLUSÃO 1
Sintaxe nunca foi significado.
Saber por exemplo, sobre o infinito número de matrizes xilográficas
utilizadas no tradicional Ukio ê pode ser, na melhor das hipóteses,
um sinal de repertório cultural. Associar aquelas matrizes com os “layers”
do “Photoshop”, já é uma outra e mais bem elaborada
história. E este elaborado pensamento poderá redundar numa multidirecionada
gama de percepções até que pelo refino, nos percebamos
como seres gravados.
REVELAÇÃO 2
O novo horizonte parece descolado do espelho! O Novo Mundo e seus novos personagens:
gentes desnudas, animais e plantas exóticos, cheiros ocres, cores de
outras paletas e luzes, sabores e saberes em estado cristalino... A aparente
ausência de um molde.
E, a percepção da diferença, como mola propulsora do conhecimento,
mais uma vez, mostra toda a sua surpreendente força: nos surpreendemos,
o novo horizonte parece descolado do espelho! Era necessário, digamos,
de modo eufêmico: "assimilar" e "digerir" os novos
espaços e seus "primitivos" personagens... Ironia: tempos modernos.
DEMOCRACIA E ERRO
Um outro “ardil artístico” é aquele que apregoa ser
a matéria impressa a mais democrática das expressões artísticas,
uma vez que sua edição possibilita maior acesso à obra
de arte.
Arte, não se processa num passe de mágica. Como ter acesso à
obra de arte sem o conhecimento de sua história e tradições?
Como valorar um objeto artístico sem conhecimento dos extremos que vincula?
Uma estampa pode ser difundida em larga escala, a percepção de
suas qualidades bem como seu entendimento pressupõem uma relação
dialógica em que o repertório de ambos determinará o modo
de sua apreciação. O gozo da Arte é pertinência única.
ERA DA LUZ
Por onde andam os deuses?
O toque único do olhar
O "gesto" do olhar tangencia o paladar...
A "visão" auditiva desenha a música...
Aromas configurados em re-tratos de seu objeto de origem: sonho
O jogo das palavras manifesta seu "institnto" de sobrevivência,
reafirmando a premissa de que o nutriente do presente é o passado.
O aparecimento e prática em larga escala da fotografia são o marco
histórico do início da Era da Luz. O meio fotográfico irá,
então, delinear o perfil de novos ângulos e sutilezas de outras
artes gráficas: a coreografia, o desenho do movimento; a radiografia:
a estrutura de um corpo antes apenas imaginada, além de transportar tempos
e horizontes os quais só eram conhecidos por meio de uma imprecisa descrição
verbal ou escrita.
No âmbito artístico, a fotografia desestabiliza o sentido de destreza
manual e o de posse do objeto único. E, por isso, lhe será negado
o “status” artístico durante cerca de dois séculos.
A fotografia pelo caráter de verosimilhança com o seu referente,
acrescenta um toque de veracidade à imagem figurada. Magia luminosa:
a redenção do instante por meio da imagem impressa com luz. Ilusão
especular... Como se fõsse um Gilgamesh, a humanidade continua tentando
redirecionar seu destino fatal.
Cabe lembrar que todas as formas de expressão artística, em maior
ou menor velocidade, por suas funções representativas, sempre
resgatam um instante, reapresentam o instante ou pelo menos um espectro do objeto
da representação.
Com "O Lápis da Natureza", primeiro livro ilustrado fotograficamente,
William Henry Fox Talbot demonstrou ao mundo que, por meio da fotografia, já
era possível descrever aquilo que o olho humano não conseguia
ver: frações de segundo de uma trajetória. Obras de Marcel
Duchamp e Giacomo Balla são testemunhos da veracidade dos experimentos
empreendidos por Talbot, eles os testaram, fruindo, observando, imaginando,
previsualizando a representação de um movimento mais definido,
brusco e avantajado do que o da representação cubista...
Graças à idéia de que a obra fotográfica, por seu
teor mecânico e reprodutível em larga escala, não tinha
valor artístico, foi criada uma outra história: A História
da Fotografia, que em seus arquivos e crônicas guarda depoimentos surpreendentes
como os de Duchamp, no qual atribui aos experimentos feitos com fotografia estroboscópica
a mola propulsora da idéia de sua obra prima “Descending Nude”
(Nú Descendo a Escada). A História da Fotografia que somente na
última década do século XX passou a ser modestamente incorporada
pela História da Arte, ainda tem muito por desvelar.
De fato, o meio fotográfico é em essência um meio resultante
da conjugação de Mecânica, Matemática, Òtica
e Química. No entanto, ele não prescinde do toque do olhar. Então,
já era possivel tangenciar a velocidade de muitos anos luz! Que outras
surpresas nos guarda o devir?
Adentramos a era do pensamento analógico!
Artes gráficas, planográficas, fotográficas, fonográficas,
cinematográficas, coreográficas, quem sabe de todas elas? Suas
convenções e sutilezas? Seus desregramentos e surpresas? O universo
de todas as formas e sistemas de escritas é imenso e, ao denominar boa
parte delas de um só fôlego, tudo parecerá confuso, fora
de ordem ou propósito. E, numa época em que a palavra parece parcialmente
submersa pelos sistemas de linguagem visual figurada, os ensaístas, historiadores
e críticos que se arriscam a percorrer o labirinto das possibilidades
significativas numa obra de arte, (gráfica ou não), com a intenção
de elucidar seu público leitor, pode ser contado nos dedos, provavelmente,
porque o mundo dos conformes seja bem mais cômodo. Incômodo e arbitrário
labirinto!
Assim, dado que os meios de produção e reprodução
de imagens se sofisticam a uma velocidade superior à nossa capacidade
de assimilação, o conhecimento de seus limites e conquitas fica
restrito à esfera de especialistas, o que não impede a ação
devastadora dos curiosos de todos os matizes: verdadeiro “guignol das
artes”, cenário profícuo para a instalação
de uma desnorteada e avassaladora estrutura mercadológica.
...tudo passou a ostentar um preço. O Marketing é o Deus. Ser
o número um a cada segundo é uma obrigação. As pessoas
disputam milímetros no trânsito. O diálogo se tornou disputa..
O luto parece ser a condição dos modos e modas.
Até os dias de hoje, a gravura, enquanto objeto artístico, frequentemente
é tomada como uma alternativa comercial. Transação ilusóriamente
pautada por contraditórias normas e convenções de reconhecimento
de seus valores contraditoriamente únicos, (assunto analisado por Wiiliam
Ivins em sua obra Prints and Visual Communication). Camuflagem perfeita para
o propósito de preservar um sentido de luxuoso virtuosismo exibicionista
cujas raízes parecem ter sido fincadas durante o período renascentista.
Hoje, com o advento de todos os sistemas mecanográficos e eletrográficos,
“o bazar” procura uma saída para sua mercadoria. E as saídas
são muitas, todas elas encimadas por um só e universal indicativo:
o marketing. Seus flexíveis tentáculos metamorfoseiam estratégias
comerciais de estratificação dos consumidores, muito similares,
verdadeiros “cantos de sereia” sob nomes diferentes: marketing direto,
marketing pessoal, marketing de relacionamento, marketing promocional... A esse
respeito, repito as palavras dedicadas ao catálogo Trienal Internacional
de Artes Gráficas de Praga que, no tema de sua última edição
esboçava certa preocupação em relação ao
devir das artes gráficas:
“(...)Hoje, um sedimentado universo de personagens caricatos e simbólicos
usa de truques retóricos para o estabelecimento de uma ordem artística
sem fundamento. Em ritmo supersônico, esse verdadeiro “guignol”
das artes, promove entre outras coisas, a confusão entre aquilo que é
técnica e aquilo que é tecnologia, além de restringir conceitos,
a modo estratégico de proteção daquilo que consideram ser
moda e suas artimanhas mercadológicas, apostando na estagnação
das ações do devir, como se fôsse possível estancar
o exuberante fluxo expressivo de um processo de reflexão, crescimento
e aprendizado artístico permanente. Esforço inútil, pois,
como nos ensinam os rudimentos teóricos sobre comunicação
humana: no paradigma do passado é que se vai nutrir o paradigma do novo.”
Talvez, num âmbito particular, todas estas reflexões tenham perdido
seu sentido, uma vez que me considero distante do “fazer artístico”.
Acredito que minhas reflexões e construções figurativas
estejam mais próximas de um “fazer filosófico”, território
distante da “Terra do Meio”, território em que o objeto de
Arte é, na verdade, ação amorosa no sentido literal que
o termo pode ser entendido: pincel suado de nectar, orvalho fotossensível
delizando sobre a carnadura do papel...
Carles Santos, o compositor, em uma de suas performances fêz amor com
a Música...Trata-se, portanto, muito mais do que uma troca de sensações
ou possibilidades de transe; convívio, fricção e permuta
constante; como o “flânneur”, nutre uma relação
amorosa pela cidade...
Já distante do “bazar”, sentado na poltrona tangida pelos
raios de sol que se intrometem pelas frestas da persiana da sala, abro o jornal,
e nele (forma e conteúdo), enxergo o derivado cotidiano da gravura e
também seu gênero mais difundido e bem sucedido. Na primeira página,
em destaque, observo a fotografia de uma recém-descoberta nebulosa. Poeira
de estrelas...Penso em nossa insignificância.
Prof. Dr. Luiz Guimarães Monforte
Primavera 2002.
Autores consultados
Décio Pignatari, brazilian poet and semioticist
Lucrecia Ferrara, brazilian semioticist
Craig Owens, north american philosopher
Walter Benjamin, german philosopher
Elizabeth Le Compte, north american drama director and writter
Yukio Suzuki, japanese drama director and writter
Carles Santos, spanish composer and performer
Beaumont Newhall, north american historian (photography)
William Ivins, north american historian (printmaking)