A execução de um fotograma deve ser tomada mais como um procedimento técnico do que como um processo fotográfico, podendo ser realizada com a utilização de papéis fotográficos convencionais e toda a grande variedade de suportes fotossensibilizados pelos processos aqui descritos.

Materiais

Papéis fotográficos industrializados de todos os tipos e marcas; revelador interruptor e fixador convencionais (disponíveis em qualquer estabelecimento comercial de material fotográfico e, geralmente, acondicionados em embalagens que contêm as instruções de diluição); 4 bandejas plásticas de laboratório fotográfico ordenadas convencionalmente (revelador, interruptor, fixador, e água corrente ) para o processamento; lanterna de segurança de filtro vermelho ; objeto a ser copiado ( sugiro, a princípio, a utilização de um objeto plano, como uma folha de planta ); 1 chapa de vidro polido de 4mm de espessura e de dimensão ligeiramente maior do que a do papel suporte, podendo ser utilizada como substituta uma fôrma para a execução de provas contato; 1 colchão de espuma de nylon , de dimensão maior do que a do papel suporte; fonte de luz (a mais adequada é a luz proveniente de um ampliador fotográfico. Lumináriais de prancheta * ou mesmo lanternas do tipo flash light, de pouca intensidade, podem oferecer bons resultados e efeitos diversos.

*As luminárias de prancheta de luz fria não são adequadas a esta prática.

Procedimentos

Devido à rápida sensibilidade do papel fotográfico convencional, isto é, o tempo que necessita para gravar uma imagem, é preciso que se trabalhe sob lanterna de segurança. Um laboratório fotográfico amador é bastante adequado para essa prática, porém não essencial. Uma sala escura e um flash light comum, ou mesmo uma luminária usada em pranchetas, podem proporcionar bons resultados.

A invenção, nessa prática, é palavra de ordem. Procure descobrir seus próprios métodos.

1. O objeto a ser copiado é colocado em contato com a superfície emulsionada do papel fotográfico. A face brilhante do papel fotográfico é a face emulsionada. Complemente esse “sanduíche“ colocando uma chapa de vidro de forma a exercer uma leve pressão sobre o conjunto, mantendo-o fixo. Esse conjunto, formado pelo objeto, papel e chapa de vidro, deve ser acomodado sobre um colchão de nylon. Essa arrumação deve processar-se logo abaixo da fonte de luz escolhida.

2. O “sanduíche“ é, então, exposto à luz. O tempo de exposição à luz deve ser determinado de acordo com a densidade do material que se deseja copiar, bem como de acordo com o grau de contraste que se deseja obter no resultado final. Para tanto, você deverá ter elaborado um teste indicativo dos resultados possíveis.

3. Revele o fotograma durante o mesmo tempo utilizado na execução do teste.

4. Interrompa a revelação, fixe a imagem e finalize essa etapa, colocando a imagem em banho de água corrente durante os mesmos tempos utilizados no teste e segundo as características do papel, geralmente contidas na embalagem do produto.

5. A imagem deverá ser secada sobre uma esteira ou pendurada em um varal, em ambiente livre de poeira, isso quando não se dispõe de uma secadora mecânica. Um outro recurso para secagem pode ser o uso de telas de nylon esticadas num bastidor ou de um bloco de papel mata – borrão branco e limpo.

Comentário

A prática do fotograma pode ser bastante diversificada. Os trabalhos produzidos por Man Ray e László Moholy-Nagy entre 1920/30 são excelentes referências históricas sobre a versatilidade do meio.

Fotogramas de objetos tridimensionais também são possíveis de ser realizados e, aqui, a atividade torna-se ainda mais instigante. Pode-se utilizar várias fontes de luz de exposição ou, mesmo, redirecionar um mesmo foco de luz, realizando exposições múltiplas, o que é possível controlar quando se tem à mão os resultados de um teste de tira.

Fotogramas também podem ser coloridos. Manualmente, mediante a aplicação de tintas apropriadas e tonalizadores ou pela simples utilização de papéis fotográficos coloridos convencionais, o que requer um aparato técnico mais sofisticado do que aquele que propomos utilizar, bem como química adequada, para revelação em cores. Também é possível obter um fotograma colorido (monocromático), utilizando papel Diazo ou utilizando outros processos fotográficos de impressão, como o Cianótipo, Goma-arábica e outros, sobre os quais falaremos mais adiante.

Teste de tira

Este é um procedimento que serve para orientar a escolha do resultado que se pretende obter quando se imprime uma imagem fotográfica em qualquer um de seus processos. Ele indica o que acontece no papel fotográfico sob determinadas condições de exposição à luz e no tempo em que se processa a revelação da imagem. Isso porque apresenta, de forma escalonada, as diversas possibilidades de resultado. Trata-se de valioso indicador das possibilidades plásticas do original que se pretende copiar.

Procedimento

1. Coloque uma máscara (um pedaço de papelão escuro, por exemplo) sobre o “sanduíche”, cobrindo-o parcialmente. A área não coberta do conjunto deverá ser exposta à luz. Procedimento que deverá ser repetido várias vezes, com o mesmo tempo, à medida que se vai deslizando a máscara sobre o conjunto, expondo sucessivamente as áreas do papel que estavam cobertas pela máscara.

2. Após uma seqüência de pelo menos 5 tempos de exposição à luz, revele, interrompa, fixe e lave o papel de acordo com os procedimentos convencionais.

3. O resultado apresentará a imagem impressa em listras de tons escalonados que vão do preto ao cinza-claro. Cada uma dessas listras equivale a um tempo de exposição à luz e ao resultado que se obtém sob um certo tempo de revelação determinado, constituindo-se em valioso método de leitura e aferição dos resultados que podem ser obtidos quando da impressão final.

4. Com o teste em mãos, você poderá refletir sobre qual é o resultado mais adequado ao seu “discurso visual”.

A execução desse procedimento normativo também pode ser encarada como precioso fator de economia de tempo e materiais.

Existe no mercado de materiais fotográficos, uma escala tonal que torna a tarefa de testar os tempos de exposição à luz um pouco mais ágil. Essa escala é exposta em contato com o papel, requerendo apenas um só tempo de exposição. Ela é cara e o investimento só é aconselhável para profissionais.

O laboratório fotográfico alternativo

Em visita ao Brasil, Nathan Lyons, o fotógrafo norte-americano que dirige o Visual Studies Workshop, uma das mais conceituadas escolas de fotografia de seu país, relatou-me o parecer de seu colega de ofício, o renomado fotógrafo Aaron Sisskind, sobre como deveriam ser os laboratórios fotográficos das escolas. Sisskind recomendara a adoção de laboratórios improvisados dentro de banheiros.

O fato é risível; no entanto, poucos são os fotógrafos de renome que não recorreram a banheiros transformados em laboratórios improvisados para revelar seus filmes e imprimir suas imagens, algumas delas hoje consideradas como obras-primas. E, a bem da verdade, um banheiro disponível já é meio caminho andado.

Desde que se possa dispor de um ambiente escuro, um ampliador fotográfico, qualquer tipo de fonte de luz projetável, lanternas de segurança, bandejas para contenção da química necessária à revelação e uma fonte de água corrente, é possível ter um laboratório fotográfico eficiente para a execução de um trabalho de teor refinado.

No caso da maioria dos processos fotográficos alternativos, a necessidade de um laboratório fotográfico pode ser mesmo descartada. Um espaço bem arejado, dotado de mesa, fonte de água e luz, já é o suficiente. Às vezes, na prática de alguns processos, é descartada também a luz artificial, pois é possível utilizar a luz solar como fonte de exposição.

Em fotografia, o que mais conta é a invenção no olhar. E, ainda que espaço físico e equipamento sofisticado contribuam na obtenção de um resultado final de modo mais cômodo e preciso, não se pode atribuir a versatilidade e eloqüência da idéia ao equipamento utilizado.

O negativo alternativo

O negativo é uma espécie de carimbo, cuja confecção –e posterior impressão– é agenciada pela luz. Ele faz as vezes das matrizes dos diversos processos de gravação de imagens, como a xilogravura, por exemplo. O negativo, ou positivo a ser impresso, é a matriz geradora da imagem fotográfica.

Como se poderá descobrir, por meio da prática do fotograma, há muitas maneiras de se produzir um negativo além da maneira convencional, isto é, proveniente da utilização de uma máquina fotográfica.

A boca como máquina fotográfica

A forma mais original que conheço de se obter um negativo em filme, sem a utilização da máquina fotográfica, consiste em colocar um pedaço de filme 35mm dentro da boca (o que deve ser feito em ambiente totalmente escuro) e, posteriormente, “fazer um bico” na frente de um espelho. É através do “bico” que passará a luz que gravará a imagem exterior. Essa luz deve ser proveniente de um flash caseiro. Uma vez exposto, o filme é revelado de modo tradicional.

Variações sobre uma superfície que se vê

A fotógrafa Anna Atkins produziu, no final do século XIX, uma coleção de fotogramas para documentar a flora marinha britânica, utilizando amostras daqueles espécimes como negativos, os quais eram impressos por contato com a superfície de papéis sensibilizados e revelados com água, reeditando o método de impressão utilizado pelos pioneiros da fotografia. Nesse procedimento, o papel fotossensibilizado faz as vezes do filme, e assim é, de certa forma, qualificado com o sentido da visão. Uma experiência curiosa na produção de um negativo sem máquina foi-me apresentada por um aluno que, munido de papel-manteiga e tinta nanquim, copiou as áreas claras de uma foto, preenchendo-as com tinta opaca escura e deixando as áreas escuras em branco. Produziu assim um negativo de alto-contraste, muito eficiente na execução de um fotograma ou de uma fotomontagem, isso se o trabalho de cópia da imagem original for pacientemente delineado.

Outro modo eficaz de produção de um negativo sem máquina consiste em preparar uma colagem sobre um suporte translúcido. Esse suporte pode ser papel vegetal, papel-manteiga, papel de seda, pedaços de plástico ou ainda acetato. Retalhos de fazenda estampada transparente também produzem bons efeitos, tanto quanto papel-moeda ou papel de jornal impresso.
Essa colagem é utilizada como negativo.

Recentemente, tenho obtido bons resultados de impressão utilizando negativos provenientes de imagens fotocopiadas sobre acetato. As imagens originais são diapositivos (slides) 35mm, retrabalhados digitalmente ou com efeitos proporcionados pela própria máquina fotocopiadora.

As máquinas fotocopiadoras mais atualizadas, isto é, aquelas munidas de sistemas de fibras óticas, possibilitam uma grande variedade de efeitos: alongar ou achatar uma imagem original, transformar imagens positivas em negativas (coloridas ou preto e branco), além dos efeitos tradicionais, como cópia sobre acetato e ampliação. No que diz respeito à ampliação de uma imagem original, essas máquinas não são muito versáteis, pois têm potencial para ampliar um original do tamanho de uma folha de papel ofício a uma proporção superior a 1000%, chegando mesmo a atingir as dimensões de um outdoor. Todos esses recursos podem ser direcionados à execução de negativos alternativos.

NEGATIVO ELÁSTICO

Um método simples de obtenção de transparência – que, na realidade, é o que o negativo é – consiste em suspender uma imagem impressa de seu papel suporte com o auxílio de uma folha adesiva do tipo Contact.
As imagens mais adequadas para a obtenção desse resultado são aquelas impressas em ofsete sobre papéis constituídos de várias camadas, como o papel lustroso (couché) das capas das revistas semanais. Sobre eles, deita-se a folha adesiva, pressionando-a com o auxílio de uma colher de pau, de maneira que se evite a formação de bolhas de ar. A folha adesiva deverá cobrir toda a superfície da área desejada, de modo uniforme. Posteriormente, com cuidado, levanta-se a folha adesiva, à qual deverá estar grudada a camada de tinta que compõe a imagem impressa. O resultado final aparecerá invertido. A imagem obtida, então, assume forma transparente e flexível. Tal flexibilidade torna possível toda uma série de distorções.Com um simples beliscão, por exemplo, pode-se alongar toda imagem, efeito pouco possível com a utilização dos meios mecânicos tradicionais. As máquinas fotocopiadoras atuais podem transformar esse positivo em negativo sobre acetato ou papel.

Uma outra, e mais econômica (porém mais trabalhosa), forma de execução do negativo elástico consiste em aplicar várias camadas de cola branca sintética sobre a superfície da imagem original (sete ou oito camadas são suficientes). A aplicação dessas camadas deve ser feita com um pincel largo e macio, alternando a direção do pincel. Um intervalo de repouso de aproximadamente 20 minutos deve ser observado após a aplicação de cada camada para que a cola seque. Essas camadas formarão uma espécie de película espessa. Quando ela estiver completamente seca, a imagem deve ser colocada num banho de água morna, na qual deverá ser diluída uma pequena quantidade de sabão caseiro. Esse banho dissolve a camada de argila do papel e torna a camada de cola ligeiramente esbranquiçada. Com cuidado, e com auxílio de um pincel, vá desprendendo a camada de argila do papel. O aspecto do resultado dessa ação parecerá desastroso, porém, com um pouco de paciência a tarefa será completada. Após a remoção de toda a camada de argila do papel suporte, a imagem original estará grudada à camada de cola. Deixe-a secar pelo tempo necessário, antes de utilizá-la. Com esse resultado em mãos, você poderá, por exemplo, imprimi-lo nos moldes de um fotograma, ou sobre uma folha de filme alto contraste, de forma que se obtenha um negativo com características inusitadas.