GOMA-ARÁBICA Este
é um dos processos fotográficos históricos
mais facinantes. Considero-o como um divisor de águas entre
aquilo que é fotografia e aquilo que pode ser chamado de
arte fotográfica. Os procedimentos artesanais nele envolvidos
fazem com que o fotógrafo deixe de ser um mero agente captador
de imagens, ou um mero impressor, para assumir o papel de qualificador
da imagem.
Tempo, refino, tato
e objetividade construtiva do discurso visual, além de persistência,
são os quesitos principais ao lidar com esse método
de impressão. Nele, um papel é emulsionado com uma
mistura de goma-arábica, bicromato de potássio ou
de amônia e um pigmento, para posterior exposição
à luz, em contato com um original. Durante a exposição,
a emulsão endurece na proporção em que é
atingida pela luz. Após a exposição a imagem
é revelada em água corrente, procedimento que dissolve
a camada de emulsão não atingida pela luz, deixando
aparente a imagem gravada.
A impressão sobre
goma-arábica apresenta como resultado final uma imagem monocromática
ou policromada, dependendo da quantidade de pigmentos que se queira
aplicar. E aqui, é bom lembrar que a cada camada de emulsão
aplicada sobre o papel corresponde um pigmentaçnao, uma exposição
e uma revelação independentes, o que implica um trabalho
paciente.
Trata-se de um processo
barato que, executado com papéis e pigmentos de boa qualidade,
produz um resultado delonga durabilidade. Sua única desvantagem
reside na lentidão de seus procedimentos. Lentidão
que pode ser prazerosa.
Qualquer tipo de negativo
ou positivo pode ser impresso com esse método. Em se tratando
de negativos convencionais, recomenda-se um negativo de densidade
própria para impressão em papéis de contraste
2 ou, caso o impressor seja experiente, de contraste 3.
Os trabalhos históricos
de Edward Steichen e Robert Demachy, bem como os trabalhos recentes
de Alan Blaustein, são excelentes referências do versátil
potencial plástico quee o meio pode proporcionar.
Materiais
A principal característica
do papel a ser utilizado nesse processo deve ser sua resistência
à água, pois cada camada de sensibilizador aplicada
sobre sua superfície requer uma revelação distinta.
Esse papel também deve ser ligeiramente texturizado. Dentre
os disponíveis no mercado nacional, os mais adequados são
Canson ou Acqua. Os papéis estrangeiros recomendados são:
Rives BFK, Strathmore, Papier d’arches, Gallery ou Whatman.
Papéis artesanais de pH zero também são recomendados.
Antes de utilizar esses papéis, um pré-recolhimento
de suas fibras é necessário. Portanto, eles devem
ser imersos em água por alguns minutos e secados. Posteriormente,
esses papéis deverão ser “encolados” por
imersão ou com duas ou três mãos de cola branca
sintética diluída em água na proporção
de 1: 3 e aplicada sobre superfície. Utilize um pincel de
boa qualidade, isto é, que não desprenda as cerdas.
O papel , então, deve ser secado. Evite secá-lo em
local empoeirado. Existem no mercado materiais impermeabilizantes
em frascos do tipo spray, que tornam essa etapa do trabalho um pouco
mais ágil.
Materiais auxiliares:
- 2 ou 3 espátulas ou pás de plástico para
agitação das soluções químicas;
- 1 banheira plástica para revelação ( recomenda-se
o uso de um sifrão para fazer circular e drenar a água
do banho revelador );
- 3 frascos de plástico escuro para estocar a química;
- 3 pincéis largos de cerdas macias e de boa qualidade para
a aplicação das emulsões de cores diferentes
sobre o papel;
- 1 pincel de cerdas rígidas , do tipo trincha, para igualar
( bater ) as camadas de emulsão;
- Vários frascos pequenos para a mistura de pigmentos à
emulsão sensibilizadora.
Atenção
1.
Todos os instrumentos auxiliares deverão ser lavados imediatamente
após seu uso. Não é recomendável o uso
dos mesmos materiais auxiliares em processos diferentes.
2. Pigmentos variados: Tintas aquarela de boa qualidade ou guache
transparente são as mais adequadas. Evite o emprego de tintas
baratas, do tipo acondicionadas em forminhas redondas. Pigmentos
em pó também podem ser utilizados, o que requer certa
experiência em seu preparo. Não é recomendável
a utilização de pigmentos que rapidamente se modifiquem
quando em contato com umidade ou luz.
3. Goma-arábica: 80 g de goma-arábica diluídos
em 250 ml de água. A goma-arábica, também conhecida
como goma-acácia, é apresentada na forma de pó
espesso, de cor branca. Sua diluíção é
lenta e por isso deve ser feita com bastante antecedência.
Acondicione o pó em um filtro resistente, de forma que se
constitua um pequeno saco amarrado, que deverá ser colocado
dentro do recipiente de água ( uma garrafa ou frasco graduado
, por exemplo). Esse procedimento leva cerca de um dia. Ao retirar
o saco do recipiente, com delicadeza, torça-o, de forma que
se aproveite o máximo de goma diluída. A sobra de
pó concentrada no flitro não deve ser reutilizada.
A solução diluída deve ser coada, e a ela adicionados
2 g de cloreto de mercúrio diluídos em 5 ml de água
destilada. Guardadas em frasco plástico, a goma permanece
com suas propriedades inalteradas por algumas semanas. Essa solução
também poderá “coalhar”, que produzirá
um odor perceptível, indicativo da inadequação
de seu uso.
4. Sensibilizador: Dicromato de potássio, de amônia
ou de sódio. Quaquer um desses três químicos,
diluídos em água, na proporção indicada
abaixo, constituirá a parte fotossensível da emulsão
sensibilizadora:
20 g de dicromato de potássio diluídos em 250 ml de
água;
40 g de dicromato de amônia diluídos em 100 ml de água;
80 g de dicromato de sódio diluídos em 40 ml de água.
A temperatura da água recomendada é de 20 º C.
A solução
escolhida deverá ser guardada em frasco escuro, e permanecerá
inalterada por um longo tempo.
Sensibilização
1. Misture 20 ml da solução
de goma-arábica a 2 g de pigmento até obter uma solução
uniforme. Para cada pigmneto deve ser processada uma mistura separada.
2. Agitando sempre, adicione 20 ml da solução de dicromato.
Essa solução deverá ser protegida da luz solar
ou de qualquer fonte de luz ultravioleta. Trabalhe em ambiente sombrio.
Uma pequena mudança na coloração do pigmento
poderá ocorrer, mesmo quando não afetado pela luz,
o que pode ser controlado com algumas gotas de amoníaco.
3. Antes de aplicar a emulsão sobre o papel, é aconselhável
determinar uma margem de aproximadamente 3 cm a partir da área
onde se deseja imprimir, o que facilita o manuseio do suporte nas
etapas seguintes. O papel deverá estar fixo, de modo que
facilite o trabalho de sensibilização.
4. Utilizando o pincel recomendado, cubra rapidamente a área
de impressão com a solução sensibilizadora,
de modo que se obtenha uma superfície uniforme. Um bom procedimento
é aplicar a emulsão em todas as direções.
Evite que o papel fique encharcado.
5. Com o auxílio de um pincel de cerdas rígidas (
trinchas ), e utilizando apenas as pontas das cerdas, trabalhe perpendicularmente
ao papel, batendo levemente sobre toda a superfície emulsionada.
Esse procedimento torna a camada de emulsão mais uniforme.
É quase impossível obter uma superfície emulsionada
100 % uniforme devido à própria espessura da solução.
6. Seque o papel em local sombrio ou com auxílio de um secador
de cabelos. A temperatura de secagem não deve ser superior
a 40 º C. Temperaturas muito altas endurecem a emulsão,
o que dificulta o trabalho de revelação. O papel emulsionado
e seco poderá ser estocado em sacos plásticos selados
e armazenado em local refrigerado e sombrio durante algumas semanas.
7. A impressão é feita por contato do suporte com
o original. A fonte de luz mais adequada à exposição
é a ultravioleta, podendo ser utilizada uma fonte de luz
de quartzo de 1000 W, sempre colocada a uma altura de aproximadamente
60 cm do material a ser exposto. O tempo de exposição
é indicado por um teste de tira e poderá ser reduzido
quando o dicromato de amônia for utilizado na composição
da fórmula sensibilizadora. Em condições normais,
em uma solução fotossensível composto por dicromato
de potássio, o tempo de exposição à
luz não vai além de 8 minutos. A luz solar também
pode ser utilizada como fonte de exposição.
8. A revelação é feita em água corrente
a uma temperatura de 30º C. O papel deve ser mergulhado por
inteiro, com a emulsão para baixo, e , após alguns
minutos, deve ser gentilmente virado para eliminar possíveis
bolhas de ar e possibilitar a imersão de toda a face emulsionada.
O tempo de revelação pode ser de 10 minutos ou muitas
horas, pois é o impressor que determina o resultado que mais
lhe convém; contudo, é a espessura da camada de goma-arábica
a grande responsável pela variação desse tempo.
9. Após a revelação, a imagem deve ser pendurada
num varal para secar, o que também pode ser feito por um
secador de cabelos regulado a uma temperatura suave. Temperaturas
muito altas encolhem as fibras do papel e, quando o trabalho envolve
impressões múltiplas, o registro fica prejudicado.
10. Algumas vezes, o resultado final apresenta pequenas manchas
amarelas ou alaranjadas, que podem ser removidas numa solução
de 5% de bissulfito de sódio por cerca de 2 minutos. O bissulfito
de sódio afeta toda a emulsão, deixando-a fragilizada
e, de certa forma, aderente, o que torna a secagem final ligeiramente
mais longa. Segue-se um banho rápido em água corrente
por cerca de 3 minutos, após o que a imagem deve ser secada.
Após
todo esse trabalho, não espere um resultado gratificante.
A imagem que resulta de uma primeira impressão é geralmente
pálida e sem contraste, e este vai se acentuando à
medida que uma nova camada de emulsão é aplicada e
a imagem reimpressa. Esses vários ciclos de impressão
requerem cautela no registro da imagem, isto é, nas impressões
subsequentes. Nelas, o negativo deverá ser colocado exatamente
na mesma posição da impressão anterior.
Registro
O registro é uma
norma de posiçnao que se estabece quando se imprime várias
vezes um negativo sobre o mesmo suporte em qualquer processo alternativo.
Tenho utlizado um método muito eficaz na confecção
de meus trabalhos que consiste em perfurar juntos, negativo e suporte,
como se fossem uma “casa de botão”. O botão
é uma pequena lâmina metálica que segura as
duas partes, negativo e suporte. A única desvantagem aparente
nesse meetodo de registro é que o original apresentará
a perfuração que pode ser escondida por um passe-partout,
ao gosto do fotógrafo. Em meus trabalhos, tenho incorporado
os furos, deixando-os aparentes.
Existem diversos e eficientes métodos de normatização
de registro criados e utilizados por impressores de gravuras.
Percevejos ou tachinhas também podem constituir um bom recurso
de demarcaçnao, porém, não muito eficiente
porque muito frágil. Um ligeiro engano pode colocar a perder
todo um trabalho de horas.
Fitas adesivas também podem ser utilizadas na demarcação
do registro, devendo ser colocadas nas margens do negativo e do
papel, com a desvantagem de que ao final do trabalho restará
sempre um indesejável resíduo de cola. Ignorar o registro
também pode ser um recurso gerador de interessantes efeitos.
Sugestões
O processo de impressão
sobre goma-arábca, por suas características artesanais,
estimula a criatividade. Trata-se mais de um processo de construção
da imagem fotográfica do que de captação
e registro de uma imagem. Sua prática marcou a produção
fotográfica do período Pictorialista, na história
da fotografia, e, posteriormente, a produção das décadas
de 1960 e 1970, quando a atividade em torno da fotomontagem era
bastante difundida. Diria mesmo que esse método induz à
prática da fotomontagem, o que não precisa ser tomado
como regra geral.
A separação
de cores de um cromo, como a que é feita para a impressão
em quadricromia offset (e que pode ser feita em laboratório
convencional com a utilização de filtros próprios),
resulta um conjunto de negativos diferentes de uma mesma imagem,
os quais podem ser impressos sequencial ou alternadamente sobre
goma-arábica, produzindo efeitos cromáticos inusitados.
O resultado final nessa
prática é determinado pelo impressor, nunca pelo ciclo
de procedimentos técnicos.
Caseína
(fotografia impressa à base de leite)
O leite possui uma proteína
gordurosa, a caseína, que pode ser utilizada como base para
imprimir fotografias de um modo muito semelhante ao do processo
de impressão sobre goma-arábica. A caseína
é separada do leite com a adição de ácido
acético e, posteriormente, combinada a bicromato de potássio
e pigmentos. Essa solução combinada é aplicada
sobre a superfície do papel escolhido, seca e exposta à
luz em contato com o negativo original. A revelação
é feita em banho de água corrente e fixada em banho
de água contendo algumas gotas de amônia.
Materiais
100 g de leite em pó
instantâneo diluídos em 80 ml de água
8 ml de ácido acético que serão adicionados
ao leite para a separação da caseína
frascos graduados e pás para a mistura da química
pigmentos de boa qualidade, diluídos, para tingir a caseína
30 g de bicromato de potássio diluídos em 100 ml de
água destilada
10 ml de amônia para o banho final da imagem impressa.
Procedimentos
1.Após a separação
da caseína do leite, ela deverá ser tingida com o
pigmento escolhido.
2.A caseína tingida
comporá uma solução combinada com a solução
de bicromato de potássio, que é o elemento fotossensível.
Essa mistura deve ser feita sob agitação constante.
3.Com um pincel largo
e macio, a solução fotossensibilizadora deve ser aplicada
sobre o papel escolhido como suporte. Depois deverá ser secado
com o auxílio de um secador de cabelos de temperatura moderada.
4.A impressão
é feita por contato do suporte emulsionado com o original
escolhido, sob quaquer fonte de luz recomendada nos processos anteriores.
5.A revelação
´feita em banho de água corrente fria até o
ponto em que as áreas de emulsão não atingidas
pela luz comecem a se desprender do suporte. A imagem , então
é transferida para um segundo banho de água, contendo
uma pequena porção de amônia. A revelação
poderá ser complementada banhando-se a imagem com jatos de
água fria provenientes de uma mangueira. Finalmente, a imagem
deve ser secada. |