INTRODUÇÃO
Certa
vez chamei a fotografia de “ prateleira de São Miguel
Paulista”. A professora Lucrécia Ferrara entendeu e,
para aquele momento, era o que bastava. Mais tarde, concluí
que a metáfora utilizada traduzia bem o que a fotografia
realmente é : um tênue suporte de papel ou plástico
sobre o qual se deita o desejo da memória, exatamente como
os simbólicos troféus cotidianos que armazenamos nas
prateleiras de nossas casas. Essa visão figurada fica mais
evidente quando se tem a oportunidade de praticar a fotografia artesanal,
na qual o fotógrafo traduz a esperiência visual nas
múltiplas camadas de emulsão fotossensível.
Este livro sobre procedimentos fotográficos tenta exprimir
essa visão. Tais prodedimentos, hoje apelidados de fotografia
alternativa, referem-se a uma prática mais do que centenária,
histórica, a qual, nos dias de hoje, permite ao fotógrafo
desprender-se dos statutos usuais de registro de uma imagem através
de luz para estabelecer um outro, mais adequado ás suas necessidades
expressivas. Ele imprime de acordo com suas próprias regras,
cria novos seres, gera experiências visuais, constrói.
Meu interesse pelo assunto é proveniente da necessidade de
encontrar um método de transmissão dos princípios
fotográficos aos alunos dos cursos que tenho ministrado nas
universidades brasileiras.
Essa busca encontrou seu alvo nas valiosas informações
recebidas de meus mestres Bea Nettles e Charles Arnold, há
doze anos, quando frequentava o curso de pós-graduação
da Escola de Artes e Ciiências Fotográficas do Instituto
de Tecnologia de Rochester. Desde então, passei a colecionar
anotações e colocá-las em prática com
meus alunos, sempre que possível. O resultado dessa prática
sempre foi positivo, pois, à medida que evoluíam,
os alunos tinham a oportunidade de vivenciar a história da
fotografia de modo prático e aprofundar seus conhecimentos
sobre o assunto.
O conteúdo desta publicaçnao foi ordenado de forma
a que o leitor tenha acesso a uma profusa gama de “efeitos”
de simples execução e à descoberta do potencial
plástico inerente ao meio fotográfico e suas raízes
históricas.
Este texto básico também possibilita acesso a um universo
cuja a abrangência está demarcada pelo horizonte da
imaginação. Nele, as trilhas a serem seguidas levam
ao encontro da percepção de que a fotografia pode,
além de espelho e janela, constituir-se em prateleira. Mimese
da memória.
Muitos foram aqueles que estimularam essa empreitada, a eles meu
agradecimento sincero. Os colegas de ofício, que gemtilmente
cederam as imagens que ilustram esta publicação, merecem
minha mais demorada reverência. O professor Décio Pignatari,
meu orientador de tese de doutoramento, sempre habilidoso, paciente
e cavalheiro, também é merecedor de minha profunda
gratidão, extensiva ao amigo, fotógrafo e ex-aluno,
Carlo Cirenza, entusiasta da fotografia.
Nota
preliminar
Fotografia
é o ato de gravar imagens sobre uma superfície suporte,
pela ação da luz. A definição serve
tanto para a fotografia de hoje quanto para a fotografia de uma
passado mais que secular, no qual o universo fotográfico,
parece-me, era bem mais diverso, versátil e rico do que a
estereotipada e apressada prática fotográfica de hoje.
É a esse universo que me reporto nesta publicação.
Antes de iniciar o assunto, lembro da existência de algumas
constantes nos procedimentos fotográficos de hoje e de ontem:
1.Um
suporte fotográfico, que pode ser papel filme, é,
geralmente, constituído de camadas aderentes que podem ser
gelatina ou alguma resina sintética. A função
dessa camada aderente é manter suspenso, sobre o suporte,
o componente fotossensível, isto é, a combinação
de sais ou químicos que irá, de fato, tornar possível
a iagem fotográfica. A camada aderente, quando exposta à
luz, endurece, tornando-se insolúvel, sendo que as partes
da camada não atingidas pela luz permanecem solúveis.
Esse material fotossensível pode ser constituído de
sais de prata, como no caso dos papéis e filmes fotográficos
convencionais. Lembro, no entanto, que no decorrer desta publicação
veremos que existem outros químicos e metais fotossensíveis
e que alguns processos, como os férricos e eletroeletrônicos,
de produção e reprodução de imagens
dispensam as camadas aderentes.
2.Quando o suporte fotossensibilizado é exposto a luz, ainda
que não possamos ver qualquer
resultado, a imagem é gravada na superfície do papel
ou do filme suporte, o que é chamado de imagem latente. Esse
resultado será visível após a revelação
química.
3.A imagem latente é processada, primeiramente, num banho
revelador. Esse banho revelador atua
como um redutor que transforma os sais de prata ou os outros elementos
fotossensíveis em micropartículas metálicas.
Quando essas partículas ficam aglutinadas, formam a imagem
do original, em positivo ou negativo.
4.Sucede ao banho revelador um banho interruptor, cuja função
é interomper a ação transformadora do revelador.
5.O terceiro banho, no qual a fotografia é tratada, é
o fixador, cuja função é dissolver os sais
de prata não atingidos pela luz.
6.O banho final, processado em água corrente, atua como removedor
dos resíduos químicos dos banhos anteriores.
7.A imagem impressa é então secada e finalizada.
Essa
descrição, muito simplificada, pode ser tomada como
um quase padrão no que diz respeito à constituição
da maioria dos materiais e procedimentos fotográficos. Não
pode, no entanto, ser tomada como regra geral, principalmente no
que diz respeito à maioria dos processos aqui descritos.
Aviso
Todos
os processos fotográficos aqui descritos envolvem a manipulação
de diversos químicos que podem gerar algumas reações
alérgicas ou produzir manchas na pele ou nas roupas. Portanto,
é altamente recomendável o uso de pinças, luvas
cirúrgicas ou de borracha e aventais em todas as práticas,
bem como o trabalho em ambiente arejado e o estoque da química
de forma que se evitem possíveis acidentes. Também
é recomendável tomar um copo de leite ao final de
uma sessão de trabalho.
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