OUTROS
PROCEDIMENTOS / OUTRAS VISÕES
O universo sintático da fotografia é
bastante variado. Há um sem-numero de processo fotográficos,
cada um com características e efeitos próprios. Os
processos aqui mencionadas são os de mais fácil acesso
em termos de materiais e procedimentos e nem por isso, os menos
nobres. Outros como Daguerreotipia, Ambiotipia, Urânio, Papel
Salgado, Colotipia, Bromóleo, requerem um aspecto técnico
sofisticado e químico pouco acessível.
Não
são poucos os artistas que hoje se valem de todos os recursos
fotográficos e seus derivados como ferramenta complementar
de seus “discursos” visuais. É o caso, pôr
exemplo, de Jeanete Musatti, que constrói muitas de suas
assemblages tendo a fotografia como suporte de um microcosmo delator
de nosso cotidiano, com rara precisão metafórica e
refinamento critico, como em Auto retrato em Uberlinguen, de 1982.
Joseantonio
Hergueta é, dentre os videomakers, aquele que se pode destacar
como um dos que utilizam com maestria os múltiplos recursos
da fotografia na construção de seus vídeos
e instalações, como mostra a ilustração
de sua obra Epistolário. Este papel é minha pele,
esta tinta meu sangue, de 1990, na qual um pequeno corredor de imagens
e textos dinâmicos conduz o espectador a um livro imaginário
que por efeito de projeção, se auto-escreve e se autofolheia.
A idéia de transmitir imagens por meio
de ondas e radio é antiga e muito familiar nas redações
dos jornais. Tornou-se popular com o aparecimento das maquinas domésticas
de fax, que captam imagens e textos por varredura. No Brasil, a
idéia de utilizar o meio como ferramenta do fazer artístico
foi apresentada pela primeira vez na XX Bienal Internacional de
São Paulo, quando, no 1º Studio Internacional de Eletrografia,
cinco países trocaram imagens por via telefônica. As
mais recentes e especulantes fotografias panorâmicas de 360º
graus, de Andrew Davidhazy, têm sido finalizadas com o fax.
Já vai “longe” o tempo (ontem)
em que o máximo que se podia conseguir em termos de imagem
gerada por computador (uma prima da fotografia) era a tradução
de uma fotografia em baixa resolução de sinais muito
simples, como pequenas cruzes, pontos ou quadrados. Hoje, graças
aos scanners de toda a sorte e sofisticados métodos de digitalização,
temos a imagem fotográfica reproduzida em cores numa resolução
muito fiel à dos originais e num tempo muito curto. Muitos
desses recursos técnicos têm sido utilizados há
algum tempo por diversos artistas. É o caso, por exemplo,
de Cuck Close e seus fantásticos e gigantescos retratos de
escala tonal moldada na computação gráfica.
Setsuko Ishii e suas fantásticas paisagens
holográficas de teor impressionista, Philippe Boissonet com
seus experimentos com eletrográficos e holográficos,
Julio Plaza e seus trabalhos realizados para a rede de transmissão
“vídeotexto”, também fazem parte do time
de artistas que investigam as qualidades plásticas dos meios
tecnológicos contemporâneos, dos quais o estatuto ainda
esta em formação.
Os exímios bordados executados por computador
de Glaucia Amaral, a uma velocidade de 400 pontos de agulha por
minuto servem como precisos indícios do sem-fim de possibilidades
proporcionadas pelas novas tecnologias de imagem.
Muitos livros de artistas contemporâneos
de formatos não normatizados, alguns dos quais constituídos
de intrincadas e lúdicas dobraduras e efeitos de sobreposição
de paginas e imagens, encontraram sua forma final na interferência
das novas ferramentas. É o caso da produção
de Keiyh Smith e dos inebriantes livros/jogos de Betty Leirner,
nos quais palavras transparentes foram impressas sobre suporte translúcido,
verdadeira mimese de um texto sussurrado. Fascinante também
o resultado obtido por Maria Bonomi nos rigorosos experimentos de
tipologia via computação gráfica conjugada
à xilogravura, que redundou no livro Haroldo de Campos: O
elogio a Xilo.
O campo do design gráfico é um dos
que absorvem o maior usufruto com a introdução das
novas técnicas. Afinadas referências nesse âmbito
são: os trabalhos plurificadores de Javiel Mariscal, que
percorrem com desenvoltura caminhos que vão da monotipia
ao desenho animado por computação gráfica;
as ilustrações a traço com interferências
de colagens e eletrografias de Carla Caffé; o inteligente
design gráfico de Emilie Chamie, sempre pautado pela funcionalidade;
a arte gráfica e “grávida” de fotografia
e os efeitos de texturas e modulações de Stefano Roval;
e a aplicada e encantadora produção gráfica
de Simone Mattar. |