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Cid
Marcus Vasques
Estamos no tempo precário, Monforte.
Músicas e sapatos, móveis e telas envelhecem mais
depressa do que as rosas. Dizem muitos que é preciso trazer
a arte à vida. Mas qual vida, Monforte? Trazê-la ao
nível do consumo, isso, sim, querem dizer. Que tempos os
nossos amigo. Mas a moda não pode ser valor, nem a produção
artística, simples conceito. Arte é co-realidade.
E você já começa a compreender.
As setas e o espaço. Entre a organização
e os desdobramentos, o andamento rítmico. O espaço
e as tensões. No mais-que-a-soma, a projeção
da vida como dimensão fundamental. Um espaço de diversas
perspectivas, onde não interessam representações
localizadas. Espaço situação enquanto experiência
que se desenvolve sem direção sistemática.
Assumir tudo como índice, não como símbolo.
Sinais de uma evolução que me parece coerente e que
se liga ao próprio ritmo da vida. O seu, o nosso, de quantas
mais. Como diz Murilo Mendes: “O pintor constrói o
signo; o signo mede o pintor, eu vi e palpei o signo.”
Daqui pra frente, quem quiser que prossiga, Monforte.
O que lhe dizemos vem de nossa situação bastante particular.
Uma convivência intransferível. Para mim e Thereza,
na discussão de seus desenhos, depois que você foi
embora, o reencontro da possibilidade do ambíguo. Uma tentativa
de construir a dimensão da própria consciência.
Uma construção com empenho críticoque pertence
ao que consideramos vivo na infinita trajetória.
É preciso correr o risco, Monforte. Nadar
às vêzes contra a corrente. Amar o presente com o “espírito
antigo”. Pensar sem ré-pensar. E, sobretudo, ao construir,
a máxima preocupação com a habilidade artesanal:
aquele enlace místico entre o artista, suas ferramentas e
o material. Faça. Refaça. Aqui e acima vale o exemplo
de um Bonnard. Mesmo que falem de imobilismo. O caminho é
seu.
fonte: Convite da primeira exposição
individual. Galeria Girassol, Campinas, São Paulo - 1974
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