Eliana De Simone

O JOGO DA AMARELINHA – OU O “BRICOLEUR” NOS LABIRINTOS DA INTERPRETAÇÃO.

O ponto de partida, ou melhor dizendo, o fio condutor que alinhava as idéias, fragmentos e imagens contidas no conjunto de obras dessa exposição, a brincadeira infantil conhecida como o Jogo das Amarelinha, revela muito sobre seu autor, o fotógrafo e artista multimedia Luiz Monforte.

Para esse “bricoleur” da imagem, o colecionar/ordenar/resgatar fragmentos é mais do que uma possibilidade metodológica de trabalho – é opção existencial. “Flashback”: final dos anos ’70, uma escola superior de artes plásticas em Santos. Um jovem professor da disciplina “Comunicação Visual” – o nosso “bricoleur” Luiz Monforte – empreende com seus alunos – entre os quais a autora deste texto – um projeto incomum e ousado.

A modesta sala de aula se transforma como que por passe de mágica num galpão-atelier, com ares de “loft” nova-iorquino; sobre o chão é desenrolado um enorme rolo de papel de cerca 1m de largura, ocupando quase toda a extensão do comprimento da sala; os alunos, munidos de pincéis e tintas diversas, recortes, cola, pedaços de tecido, fios e cordas, debruçados sobre o papel (a cada um cabe aproximadamente um metro ou dois deste) experimentam técnicas aprendidas em outras disciplinas ou desenvolvem seus próprios experimentos, metamorfoseando-se em Pollocks, Rauschenbergs, Cornells por algumas horas.

O professor salta de cá e de lá, responde perguntas, ouve explanações, comenta-as, dá sugestões. O clima,. pontuado de risadas e descontração, é de euforia criativa. No final de horas de trabalho o resultado é surpreendente: uma obra coletiva, composta de fragmentos, extratos de personalidades diversas, justapostos numa “cartografia simbólica”, usando uma expressão que seria anos mais tarde formulada pelo artista-professor, referindo-se às possibilidades inerentes ao seu procedimento artístico pessoal.

O relato desse exercício de criatividade coletiva, comparável em propósitos e envergadura às ações coletivas desenvolvidas por Lygia Clark na mesma época com seus alunos na Sorbonne, em Paris, aponta a coerência programática que orienta Luiz Monforte nos campos de atividade aos quais tem se ocupado com igual paixão e dedicação: a docência e a arte.

Este episódio elucida ainda uma das premissas básicas que orientam arte/vida de Luiz Monforte: o Lúdico, entendido como princípio do prazer na atividade criativa. A máxima apreendida do mestre Bruno Munari,”... conservar o espírito da infância...O prazer de conhecer...a vontade de comunicar”, transparecem na “ação coletiva” dos anos ’70, assim como no “Jogo da Amarelinha”, são pressupostos fundamentais: brincar é condição “sine qua non”.

O próprio título escolhido para a série encerra uma “brincadeira verbal”, um jogo de palavras com o qual o artista/brincalhão faz alusão ao meio técnico que emprega: “amarelinhas” são as soluções químicas fotossensíveis monfortiano par excelence! Com as fotoalegorias da “Amarelinha”, Luiz Monforte brinca com as imagens, apropria-se delas, recorta-as, sobrepõe, descarta, recupera.

Os fragmentos visuais ali contidos encerram enigmas entrelaçados, como nas estórias das mil-e-uma Noites ou nos contos-dentro-de-contos de Jorge Luiz Borges; são peças encadeadas de um puzzle divertido e misterioso, cuja solução certamente reside acima “da concretude dos fatos” do “domínio do terrestre”, convidando-nos a uma leitura não-linear. Ou seja, no “domínio da imaginação” o leitor/espectador começa e recomeça a estória continuamente, refazendo o percurso da obra aberta de Umberto Eco ou deixando-a “definitivamente inacabada” como o Grande Vidro de Marcel Duchamp.

Os títulos das obras nos fornecem pistas (falsas u verdadeiras?!?) da cadeia de pensamentos, do universo de idéias, dos processos associativos e da estratégia visual nos quais o artista se apóia ao construir a trama do “Jogo de Amarelinha”: “Certamente não foi o mero acaso, e tão pouco a conseqüência de um desenvolvimento paralelo” (título da fotomontagem Nr. 4 da série), “Fazendo a luz das lanternas percorrer as paredes e os tetos de Olduvai, Tanganica” (título da fotomontagem Nr. 6 da série), ou ainda “Cartografia do tempo em que os australianos vestiam penugem dos pássaros” (título da fotomontagem Nr. 12 da série), para citar alguns exemplos, são obras evidentemente carregadas de uma simbologia presente, aos quais são atribuídos sentidos discursivos objetivamente alegóricos.

Como nas fotoalegorias de Oscar Gustav Rejlander, de quem Luiz Monforte é herdeiro direto, as múltiplas imagens contidas no “Jogo de Amarelinha” deconstroem o sentido de captação da realidade, confirmando assim o “destino elevado”do meio fotográfico, isto é, para além do “domínio do terrestre”.

Uma possibilidade de abordagem, de tentativa de desvendar o enigma do Jogo da Amarelinha, é perceber suas partes, seus fragmentos, como anotações de um diário, códigos dotados de uma ordem particular, de uma “chave léxica que poderá revelar uma certa ciência premonitória”, atrás dos quais se reconhece o sorriso irônico do nosso bricoleur-brincalhão: “talvez tudo não passe de uma série de fragmentos de um auto-retrato...um mergulho interior, na tentativa de reconhecer o que há por dentro...”

fonte: Cd-Rom - Alegorias Brasileiras