Jo Takahashi

O SEXTO PALIMPSEXTO

Camadas sobre camadas sobre camadas compõe o kimono da corte. Junihitoê. Dessas praticamente seis ou sete são parcialmente visíveis. As anteriores, nem se vê e ficam resguardadas como um prolongamento da pele. Monforte trabalha nessa margem do visível e do invisível, do dizível e do não dizível. Nas camadas sobrepostas desse palimpsesto, Monforte trabalha a sexta: a fronteira dos signos. Antes, ou depois, a justaposição cria o som da afinação da orquestra, uma entropia tendendo a uma catenária observação.

Um kimono-parangolé.

A justaposição das camadas gera a combustão das energias: metabolismo das queimadas. Sábia intervenção número um, esse primeiro palimpsesto: a química da alma eleva essa combustão ao refinamento.

Em contraponto ao rigor das mais de dez camadas do junihitoê, a antropofágica ritualização da ingestão do inimigo – o rigor, e o seu vigor – absorvido , agora em corpo presente na gravura de Monforte, comido para ser preenchido, esse rigor, para ser transformado numa relação de alteridade.

A estratégia dos desejos é a irreverente justaposição do tempo. Pele sobre pele, quase uma abnegação da plasticidade das formas. Sábia intervenção dois: alertar sobre a imposição das formas, num corpo já suturado da contemporaneidade de tantas formas absorvidas de tantas formas, testadas, aprovadas, reprovadas. Que faz o mundo caminhar sonâmbula pela consumação exacerbada da forma. O corpo ausente, não pensante, não recua, não recusa. Indução, que Lygia Clark define como “estado de arte sem arte”. Alienação elevada a um estado de pressuposta arte. Ou a imposição da mídia, sobre um corpo ausente. E o alerta entrópico de Monforte, explode, ressonante.

Essa justaposição de imagens tão entrópicas tão alienadas quanto alienantes, resguarda a razão objetiva da consistência urbana. É a estrutura da paisagem, tão arqueológica quanto contemporânea, tão passado, presente e futuro quanto o ventre perdido da alteridade urbana, que o kimono-parangolé teima em preservar e ocultar.

Das vestes, se despe essa alteridade. Como define Suely Rolnik, eterno gozo de um narcisismo hedonista, essa alteridade. Eterno vórtice do imprevisível, porque o previsível deserotiza. Esta a terceira camada dos sábios registros palimpsêsticos. Zonas incubatórias, cul-de-sac de imagens premonitórias, introduzem um paraíso que a partir da alteridade, nos encaminha para o ventre, o nosso próprio, origem de si mesmo.

Ver, entrever, entre-olhar. Beleza oculta, camada sobre camada para não se perceber, nem tanto a integridade das imagens, mas mais precisamente, a dimensão do universo oculto. Ocultar para erotizar: mostrar apenas o fragmento. Segredo secular do paisagismo japonês. É desse olhar-cúmplice que surge o quarto palimpsesto de Monforte. Trata-se da camada do mie-gakurê, esse culto olhar, esse quarto olhar. O fato, que se permite observar-se fragmentado, insinuado, sugerido. Porque, quanta generosidade: a apropriação da totalidade é oferecida ao espectador, da maneira que melhor lhe convier, da maneira como ele conseguir entrever, imaginar e desejar. Como pode uma herança tilintar anseios tão atuais?

E por fim, as duas camadas que completam os seis palimpsestos de Monforte pressupõem dois princípios ativos do axioma urbano: a sedimentação do tempo e o inexorável destino arqueológico das estruturas urbanas.

O primeiro trata da anulação de qualquer sistema de referência estrutural do significado analógico, ou seja, uma leitura temporal e histórica da evolução dos signos. Fragmentação que permite uma liberdade de improvisação e uma subjetividade figurativa. Essa dimensão, no plano do visível, só é conseguida pela eliminação de um conceito ético e sua substituição por critérios narcisísticos. Assim a forma/armadura, ou as camadas do kimono da corte, é adotada como procedimento plástico, sem o seu corpo presente, e portanto, sem os seus rizomas e fluxos sanguíneos. Por ser uma adoção do prazer em sua plenitude obcecadamente plástica mas sem gozo, o sentimento que se permite na obra de Monforte é o da ironia. Fina e sofisticada ironia, esse quinto palimpsesto, que nos remete à ironia socrática, de induzir à própria ignorância.

Ainda sobre a subjetividade dos fluxos do líquido: eles flutuam ao sabor das conexões mutáveis do desejo e das paixões e transitam pelas ondas eletrônicas, num universo vaporoso e hoje, transcontinental. A crise da identidade, coletiva ou particular, provoca o apagamento da relações. A dimensão pessoal, ou mesmo animal se anula em detrimento a uma dimensão configurada pelas teias da comunicação e da virtualidade.

A cidade pós-moderna é essencialmente irônica. Devora-se a si mesmo como animal virtual, porque a virtualidade é o antagônico da realidade, e a realidade (a história é real, a memória é real) sozinha não sustenta os fragmentos do imaginário. Se a cidade pós moderna constrói e destrói, desloca e imputa territórios e universos de existência sob a justificativa da preservação dos signos, ela precisa criar novos mecanismos de produção e consumo de códigos. A subjetividade das conexões invisíveis, os tais rizomas, têm que assumir, então, uma postura prêt-à-porter, corpo à mercê das tendências da moda, para sustentar o sistema. O aniquilamento do corpo (corpo erótico, corpo sensível, corpo cidade) é um perigo eminente. Monforte, em seu sexto palimpsesto, denuncia esse estado, e alerta: um momento de rebeldia, uma introspecção em semi-colcheia, uma quebradinha no ritmo, um intervalo possível, uma licença poética, povoada de tantos fragmentos quantos forem necessários para contestar: que a barreira entre o bi e o tridimensional é um mero discurso técnico-operacional, que a justaposição entrópica é uma estratégia de organização e que sugerir, simplesmente, é muito mais poderoso do que dizer.